24 de agosto de 2010

O que sobrou foi o exagero

Por que você não sabe me ler nas entrelinhas, hein? Por que não tem a sensibilidade necessária para perceber cada apelo implícito que a minha alma faz por você? Por que ignora os meus pedidos que, embora mudos, saem quase que aos gritos, implorando pelo seu retorno? Por que não compreende cada “me cuida” escondido por detrás do “oi” meio frio, do café servido meio morno, do colo quente que ainda quero te oferecer? Por que não percebe que os meus pontos finais são, na verdade, segmentos do que ainda quero viver ao seu lado?

Insiste um pouco mais, vai. Insiste mais, que é para esse orgulho estúpido te perdoar e perdoar a si mesmo por ser tão fraquinho e dependente de ti. Insiste! Insiste com vigor, com vontade, como se eu fosse a única no mundo capaz de te alimentar. Insiste mais e mais e quanto for preciso. Eu já tô quase cedendo, afinal.

E, enquanto não cedo, eu morro. Morro de amor, morro de saudade, morro de tudo querendo morrer de overdose de você. Eu tô morrendo, amor. Por que você não insiste um pouco mais para me salvar de mim?

Porque assim, sem você, eu vou continuar exagerando. Eu exagero muito, afinal. Relembro as palavras, revivo os momentos, recrio as minhas histórias. Me reinvento em você e volto a morrer de amor. É, eu exagero muito... Daqui a uns meses eu sei que vou olhar para trás e rir disso tudo. Vou perceber que nem te amava, quiçá te amava tanto assim. Mas, até lá, vou continuar exagerando. Porque para quem nunca teve nada, até o pouca coisa é tudo.

21 de agosto de 2010

Premeditado

Alô? Sim, sou eu, mas não pense que eu quero falar com você. Não, não é isso... Claro que não! Pra mim você morreu, meu filho. Mor-reu! Ahn? Por que eu te liguei? Senta lá, vai. Se toca, não tenho que provar a você o quanto você é passado, não. Se eu tô fazendo isso é porque tem uma causa que é maior e mais nobre do que a minha indiferença. O que é? Tá, então, é o seguinte... Eu tava andando aqui por Brotas para ir visitar Kinha quando... Putz, como dói... Enfim. Eu tava indo para a casa de Kinha quando um Dublo Adventure verde abacate com detalhes em azul canário veio de lá e, puff, me atropelou. É, um dublo... Pois é, daqueles grandões mesmo. Ai! Não dá nem pra eu me mexer! Nó, dói demais! A história? Ah, sim, como eu ia dizendo... Ai! O fato é que o motorista ou a motorista... Digo o motorista ou a motorista porque eu, como toda atropelada que se preze, não vi o rosto de quem dirigia o veículo, entende? Eu sei, eu sei. Enfim... Ele ou ela me atropelou e fugiu, meteu pé, vazou, abriu o gás. Ain, não sabia que isso doía tanto! Enfim, como eu tava dizendo... Agora eu tô aqui, no meio da rua de Kinha, sem conseguir me mexer. Ahn? O que isso tem a ver com você? Putz, que dor infernal! Sim, você deve estar aí se perguntando o que fez com que eu te ligasse no meio dessa história toda e, prepotente como é, deve tá achando que eu te procurei porque senti saudade e toda aquela besteirinha de mulher. Não, claro que não. Você para mim é tão passado quanto... Sei lá, é passado. O fato é que... Ai, merda de tornozelo! Então, é o seguinte... O acidente provocou em mim um lapso de memória. Esqueci total os números do pessoal... Como eu sei o seu número, então? Ah, er... Ah! É que ele tava gravado na lista negra, pô! Lista negra! Tá vendo?! Mais uma prova de que eu não queria e nem quero falar com você. É claro que eu não lembro o seu número, até porque você seria a última pessoa no mundo que surgiria na minha cabeça depois de um acidente. Ainda mais depois de um acidente como esse. Caramba, como dói! Olha, Felipe, esteja ciente de que se eu tô fazendo isso é porque realmente é uma necessidade... Ahn? O que eu quero que você faça por mim? Ah... Tipo... Sei lá, velho. Liga para a... Já sei! Liga para a Joyci, pede a ela o número da minha casa, daí me liga que eu ligo para lá e peço o número de Kinha, que é para ela vim me buscar antes que eu seja atropelada por outro Uno desgovernado. O que? Ahn? Uno? Eu disse Uno? Claro que não! Você ouviu errado, é claro que eu disse Dublo, tá louco? Cala a boca, para de falar merda e faz logo o que eu tô pedindo antes que eu morra! Liga para a Joyci, vai. É... É... É claro, né? Se eu tô ligando para alguém como você é lógico que é porque é urgente! Pois é... Ahn? O que? Não, calma! Não desliga ainda... Eu sei, eu sei que você precisa ligar para a Joyci e fazer o que eu te pedi, mas não desliga ainda. Antes de fazer isso me diz... Como é que você tá?


Eu vou te ligar. E, como você pode perceber, será um crime premeditado.

*

Texto fraquinho, mas faz parte. haha Bom fim de semana a todos. ;)



4 de agosto de 2010

Telefone(-me)

— Não, não fala nada! Finge que absolutamente nada aconteceu e o mundo ainda continua nosso. Só nosso e de mais ninguém. Por que é que tem que ser assim, hein? Por que? Por que as coisas não são do jeito que a gente quer que elas sejam? Por que a vida não é tão fácil quanto os contos de fadas prometem, quanto você me prometeu? Por que, hein, bê? Por que?
Lá e cá respiram.
— Deveria existir um botão, alguma espécie de controle. Te apagaria por completo das minhas memórias ou simplesmente me trancaria nelas. Eu quero você, Futuro. Será que você não percebe? Eu ainda te quero com todas as minhas forças e como nunca quis ninguém. Te quero para compartilhar meus dias, minhas tardes, noites e madrugada. Te quero para me fazer rir mesmo quando eu tiver que me controlar para fazer isso bem baixinho, porque todos dormem. Te quero durante a TPM... Você me acalmava, lembra? Eu dizia meia dúzia de palavrões ao telefone, você falava que só tava levando fora, mas, dez minutos depois, eu já tava derretida. Calma, serena, tranquila...
Serenidade lá e cá.
— Sempre foi assim quando eu estive ao seu lado, bebê. Sempre. Você tinha o dom de me acalmar, me estressar, me tirar do sério, me enlouquecer. E eu amava cada uma dessas suas habilidades como eu amo a mim mesma. Amava e ainda amo. Amo tanto que me agarro à cada lembrança que carrego de ti e faço daquilo a minha vida. Você é a minha vida, Luís. Será que você não percebe? Você é parte de mim. Uma parte grande e que pulsa do meu coração. Uma parte que pulsa e se contrai, bem apertadinho, quando a saudade bate e sobe à cabeça.
Lá e cá silenciam.
— Saudade... Você ainda vai me fazer enlouquecer, mô. Enlouquecer. Não aguento mais ter que ficar dividida entre o sim e o não, entre o ligo e o não ligo, entre o amor e o ódio. Porque, embora uma parte do meu corpo te odeie com todas as minhas forças, outra parte de mim te ama irrevogavelmente. Parte de mim sorri ao lembrar de você. Parte de mim sabe que você é – e sempre será – o mais próximo do paraíso que eu jamais estive. E essa parte é grata. Grata demais a ti por ter me ensinado e, mais do que isso, provado que eu sei amar. Sim, amor, eu sou capaz – escute bem essa palavra: capaz – de amar. Eu tenho um coração dentro de mim.
Dúvida cá e, quem sabe, certeza lá.
— Tenho um coração? Não, isso é mentira. Eu tinha. Perdi no dia que te dei. Que me entreguei a você. E você sabe que eu fiz isso. Sabe que me entreguei de verdade, não sabe? Você foi mais longe do que qualquer outro. Mais longe do que eu própria achei que deixaria alguém ir. Porque, vai entender, você me conhecia por completo, por dentro e por fora. Com você eu nunca precisei fingir. Nunca precisei censurar palavrões ou qualquer outro tipo de coisa. Você me conheceu de verdade e, talvez por isso, foi longe. E você teria ido além. Muito mais além. Até que aconteceu tudo aquilo...
Lá e cá ficam tristes. Não necessariamente nessa ordem.
— Eu não queria ter descoberto tudo aquilo. Eu juro que não. Ou melhor: queria ter descoberto e dado a você a chance de fazer tudo novo, fazer tudo diferente. Mas fazer novo e diferente ao meu lado. Meu lado, entendeu bem? Não é ao lado dela nem de quem quer que seja. Não, começar de novo ao meu lado e ao lado de mais ninguém!
Raiva. Ciúme. Frustração. Lá eu já não sei...
— Por que você faz isso com a sua branquinha, hein? Por que dá à outra a oportunidade de te chamar de “meu”? Por que me substitui desse jeito? Suas madrugas são e sempre serão minhas, você não percebe?! Sou eu quem devo saber como foi o seu dia, o que você fez ou deixou de fazer, os seus problemas, as suas vitórias. É em mim que você tem que confiar, pretinho! Sou eu que não vou trair a sua confiança. Você não percebe?
Não, ele não percebe. Ou talvez até perceba...
— Será que não percebe que eu ainda te amo e sinto saudade de cada detalhe? Eu ainda lembro de quando você me acordou às quatro e meia da manhã. Ainda lembro quando eu me tranquei sozinha no quarto e, sob o lençol, fiz de ti o meu mundo. Ainda lembro de quando ri até meu abdômen doer porque você falou do seu problema – falta! Ainda lembro de tanta coisa... Ainda lembro tanto de você. E quando eu digo “tanto” é tanto mesmo, sabe? Lembro todo dia, toda hora, a todo minuto.
Espasmos de lucidez. Pelo menos cá, porque lá eu continuo não sabendo.
— Você tá me achando meio maluca, né? Eu tô falando, falando, falando. Falando tudo isso depois de ter te xingado, te humilhado, te rebaixado. Mas eu sou maluca mesmo. É, acho que sou. Minha sanidade se foi e se esvai cada dia mais. Viver assim, sem você, não é lá dos melhores remédios para a loucura... Contudo loucura mesmo é querer ser normal, né? Raul Seixas já dizia... E Raul Seixas é sábio, mô. Muito mais sábio que eu, que você. Então a gente deveria seguir o que ele diz, né? É, eu acho que sim...
Reflexão. Reflete lá, reflete cá. Concluo.
— Vem cá me enlouquecer, vem. Vou te dar o meu mundo, contar meus sonhos, compartilhar os meus medos, multiplicar minhas conquistas e dividi-las com você. Vem cá me enlouquecer, vem?! Eu te dou o meu mundo, te conto os meus segredos, o meu dia e o que mais você quiser saber. Escuta a sua branquinha, ela só quer o melhor para você... Me obedece. Aproveita que ainda não passou da meia noite e quem manda ainda sou eu. Vem?
Suspiros. Respirações.
— Não, não fala ainda! Eu ainda não tô pronta para matar a saudade da sua voz. Não antes de...
Mais pausas. Pausa longa. Eternidade.
— Você ainda sente a minha falta como eu sinto a sua? Você ainda lembra de mim como eu lembro de você? Você ainda me quer como eu te quero, me ama como eu te amo? Você ainda...
Coragem, Branquinha. Coragem.
— Que se foda o que os outros pensam, que se foda o que vão dizer. Bebê, vem comigo, foge para um mundo só nosso e fica comigo para sempre? Porque é só isso que quero de ti.
Silêncio.
Mais silêncio.
Cadê a resposta que não vem?
A resposta não virá. Porque não há telefone, não há ligação, não há você do outro lado da linha. Tudo que há sou eu, saudade – embora “eu” e “saudade” tenham se tornado sinônimos –, orgulho e covardia.

Se eu te ligar, promete que não vai me decepcionar? Porque eu... Bom, eu não te decepcionaria.


Texto escrito no dia 20 de julho do corrente ano. Já nem faz sentido, mas eu achei que seria bom postar.
Aproveitando, queria agradecer a todos que migraram do Sopa para cá. Brigada MESMA!
Beijos da @FerAvlis.